quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

EU VIA FLORES DA JANELA...

E lá vou eu mais uma vez, revirando blocos de anotações guardadas em uma memória que já começa dar sinais de cansaço, por isso esforço-me para contar histórias reais de uma existência marcada pelas tempestades, que longe de serem um problema, moldaram e moldam até o hoje, a personalidade deste aprendiz da esperança.
Nasci em uma rua que dava fundo para o rio anil. O nome não poderia ser melhor; formosa. Em tempos de lua cheia, a água batia à nossa porta e pela manhã, nosso pai levava um a um dos filhos, carregando nas costas, para o lado seco, com maré acima dos joelhos. Eram tempos difíceis. lembro-me que morria de vergonha da nossa situação de pobreza. Meu pai, um vigia do D.E.R, que mal assinava o nome, mas que nos dava aula de cidadania e força moral. A voz parecia um trovão. Era muito comum os amigos acharem que nosso pai estava brigando com a gente, mas era a forma normal dele falar. Minha mãe, uma dona de casa dedicada, fervorosa adoradora de Nossa Senhora, fazia parte da legião de Maria. Em nossa cozinha ensaiávamos os hinos que seriam cantados na igreja da Conceição, hoje santuário ou na igreja de São Vicente com os padres canadenses. Ela era portadora de artrose reumatoide desde os treze anos de idade. Num período como este de chuva, era comum que ela ficasse sem os movimentos de pernas e mãos, o que nos obrigava a ter bálsamo benguê sempre à mão para as horas de dores mais intensas. Durante os vinte e dois anos de convivência com ela, lembro-me apenas de três vezes em que disse estar começando o dia sem dores. Apesar disso, era de uma doçura sem limites. Nunca fez da dor um alimento para lamentações ou ódios. No próximo dia dezessete de janeiro, contaremos trinta e nove anos de sua partida.
Nossa primeira casa era de taipa e coberta de palha. Durante o inverno goteiras se espalhavam por todos os lados, e colocávamos baldes para aparar a água que descia pelos buracos. O chão de terra batida, era varrido e agoado diariamente com um cuidado impressionante. Quando a noite chegava, acendíamos as lamparinas alimentadas pelo querosene comprado na quitanda do seu Chiquinho.
era comum nossa mãe ir de rede em rede colocando um azeite de interior em nossas narinas, para que tivéssemos um sono melhor. todo mês fazíamos fila para tomar um purgante de mastruz com leite. 
Estou parecendo sentimental demais com estas lembranças de família. De alguma forma o meu desejo é que você aproveite minhas memórias para revirar também as sua memória, porque muitas de nossas aflições de agora são questões mal resolvidas ao longo da vida, e que a gente vai jogando pra debaixo do tapete, mas elas ficam ali a importunar no nosso inconsciente que tudo guarda e vez por outra nos assombra em pesadelos que a gente não entende.
Vou parar por aqui relembrando  flores do jardim que nossa mãe plantava na frente da nossa casa. Lembro-me que acordava cedo ela acordava para uma espécie de aspersão ritual. e já se vão quase quatro décadas.


11 comentários:

  1. Posso sentir a presença tão viva e necessária eda matriarca, entre-linhas e memórias tão vivas quanto!

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  2. Memórias fortes que só quem já viveu senti , fica vivo dentro do peito

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  3. Ontem eu estava lembrando com um amigo o Márcio do Maiobão que minha mãe tinha em seu quintal um pequeno Girau com cheiro verde, cebolinha, tomate..nada disso se comprava..era tudo plantado no quintal da nossa casa..isso sem falar das plantas medicinais. Um abraço de seu amigo Marcos Ferreira.

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  4. Belo texto Robson. Realmente nos faz lembrar de nossas próprias vivências.

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  5. Memorias são bálsamos para nossas vidas...que elas nunca se apaguem, pois servirão de lição para os que virão...assinado igor e veronick

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  6. Memórias afetivas são as mais belas e inesquecíveis.

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  7. Muito bom não esquecer suas raízes!Deus abençoe sempre!

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  8. Belas lembranças amigo Robson, narrativa maravilhosa...Parabéns amigo por esse projeto precioso...Essas memórias são verdadeiras pérolas..Sandra Macedo

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  9. Bem esse texto me emocionou e me envolvi emocionante nessa trama.
    " Eu via flores da janela"
    Esse texto me levou pro meu passado e parte do meu presente.
    Vc tem um jeito de escrever que faz agente ir fundo nas nossas memórias.

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