Mostrando postagens com marcador meia passagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador meia passagem. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

"MEIA PASSAGEM OU MEIA CIDADE"

(a foto registra o primeiro ônibus parado na UFMa)

Parecia um dia como outro qualquer (17 de setembro de 1979). Cursava Farmácia. Estávamos na sala de aula no prédio que abrigava laboratórios de química na UFMa. No meio da aula um pequeno grupo de estudantes pediu licença para uma conversa rápida, que explicava sobre a meia passagem que já existia no papel, mas que não acontecia de fato. A conversa não demorou muito, em poucos minutos a aula era encerrada e todos os alunos se juntavam ao pequeno grupo que liderava o movimento. 
De sala em sala a conversa era rápida e em pouco tempo, todos rumavam em direção a um local onde normalmente esperávamos pelos ônibus. Quando um deles chegou, um dos líderes fez parada, entrou no ônibus e pediu a chave do carro. O motorista não protestou, desligou o caro e entregou. Começava assim o movimento popular mais importante de nossa cidade.
Na época eu lecionava nos colégios Cardoso Amorim e La Rocque. No Cardoso Amorim, uma professora que não me recordo o nome, parou a aula e começou a conclamar os alunos para se juntarem ao movimento, o que foi questionado pelo Diretor da Escola que era Deputado, ameaçando-a de demissão. Na quele mesmo momento vários voluntários começavam levar alimentos, água, refrigerantes para os jovens que se reuniam no acesso ao interior do Campus, o sol era intenso, mas ninguém arredava pé. Paralelamente, outros grupos iam de escola em escola convocando os estudantes para a manifestação no fim de tarde na praça Deodoro, no antigo coreto.
No fim do dia , por volta de 17:30 eu chegava na praça que já estava tomada de jovens de todas escolas de São Luis. Fiquei um tempo por ali e segui para o La Rocque onde ministrava aulas à noite. Estava no segundo horário quando um homem com um grande corte na testa, entrou na sala, a camisa toda ensanguentada, era marido de uma das alunas. Lá fora a multidão já avançava em direção ao Palácio do governo. Ao longo do percurso, baderneiros que se misturaram aos milhares de alunos, iam destruindo que encontravam pela frente. Na rua grande todas as lojas foram depredadas. 
Quando tentei voltar para casa me deparei com cena rara; ao longo percurso do centro até o monte castelo onde morava, todos ônibus estavam apedrejados.Fui pra casa andando.
A história é longa e está registrada em áudio, fotos e vídeo. Naquela noite mal consegui dormir. O dia seguinte amanheceu com polícia nas ruas e mais carros apedrejados. Lembro-me de ter tomado um ônibus em direção ao centro, ao chegar próximo à caixa d'água, um homem atirou uma pedra enorme estilhaçando o vidro da frente, todos os passageiros desceram.
Aquele movimento fez valer uma Lei que havia sido aprovado há décadas, a Lei da meia passagem. Hoje quem passa pela catraca pagando meia, não tem noção do luta travada pra fazer valer um direito. Muitos estudantes foram presos, muitas vozes se levantaram para defendê-los. Agora é história, história de luta. Até a próxima.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

São Luis, uma paixão que não passa


Não me lembro bem o ano, acho que era 1964. Eu e minha mãe apanhamos um ônibus na parada do monte castelo. Tinha nome de santo forte; "proteção de santo Antônio". Era véspera de natal. estávamos nos aproximando da maternidade Benedito Leite, tudo parecia normal, até que alguém gritou - O ônibus tá pegando fogo - O velho Cirb, tinha apenas a porta da frente. Confusão, gritos, pedidos de socorro, uma fumaça escura invadia o espaço, algumas pessoas pulavam pela janela. Minha mãe me tomou pelo braço e já ia me atirar pela janela na tentativa de me salvar. Lá fora um "anjo" gritou palavras de ordem - Senhora, não jogue seu filho, o incêndio já está controlado, tenha calma - Nem sei porque me lembro agora deste episódio neste momento em que, diante do computador passo a compartilhar minhas memórias desta cidade patrimônio da humanidade. Só sei que após aquele episódio, aprendi e perceber que a providência divina está por toda parte. Naquela véspera de natal viera nos acalmar para que chegássemos em casa em segurança e para que agora eu pudesse contar esta história real.
Passados alguns anos, já na adolescência, um anjo que nunca vi, lançou para mim a mão salvadora que impediu que minha cabeça fosse esmagada por um poste na rua Jansen Muller, que na época acessava a beira mar. Eu havia tomado um ônibus na praça Deodoro em direção à praia da Ponta D'areia. Muito cheio, mal consegui me agarrar em uma das portas. Quando o ônibus lotado fez a curva em direção à beira mar, pendeu para o lado, nesta hora uma mão, que até hoje não sei de quem foi, me puxou num solavando me colocando no interior do veículo. Antes disso ainda senti o cabelo locando levemente no poste. Era a segunda intervenção "angélica", me permitam dizer, me dando chances de continuar vivendo nesta cidade que amo.
Outros episódios de providência divina voltariam acontecer, mas estas histórias reais vou contar adiante.
lembro-me daqueles natais em que presépios eram montados na praça Deodoro, lembro do medo que senti agarrando-me às pernas da minha mãe ao ver a mãe d'água na frente da igreja da Sé, lembro de uma música que ouvi em manhã de domingo ao descer do velho bonde no largo Carmo, do ceguinho da rua grande, com as bochechas quase estourando ao tocar o piston e esperando por moedas no chapéu amarelado pelo tempo, lembro de rodó, uma negra que andava a passos largos, com a boca pintada e bobes nos cabelos, era a alegria da garotada que ficava fazendo provocações quando ela passava, lembro de mexer o corpanzil de "bota pra moer", no minhocão durante as aulas de anatomia já durante o curso de Farmácia. São tantas as memórias.
Acabei de completar sessenta anos, e nestes dias de novembro e dezembro de 2018 e primeiros dias de 2019, me emociono por passar por estes lugares e ver espaços renovados. É impossível não gostar do que chamam agora de complexo Deodoro, o piso é bom, os bancos acolhedores, tem verde no meio e torço para que não pichem os bustos destes maranhenses que ali estão. No dia da reinauguração, conversando com Edvaldo Holanda, que é bem mais jovem do que eu, falei da importância desta parceria, Planalto, Estado e Município, que permitiu que maranhenses e turistas, tivessem de volta de forma generosa este espaço de encontros e lazer. Lembrei a ele, que ali naquele local mais próximo da Biblioteca, nós chegávamos lá pelas nove horas da manhã para apanhar os ônibus que iam para o cururuca  ou laranjal. Era o tempo dos piquiniques. 
Como não andar por este espaço revitalizado sem lembrar do palanque armado ao lado da banca do Edmar onde artistas e políticos de revezavam no comício pelas diretas. Como esquecer aquela concentração de estudantes de todas as escolas do Maranhão naquele fim de tarde de 1979, que resultaria na efetivação de fato da meia passagem que há anos havia sido aprovada.
nas próximas postagens continuaremos mergulhando nestas memórias, e você pode ser parceiro (a). Indique fatos ou lugares que marcaram e marcam sua existência nesta cidade de gente de bem. Até a próxima.

Dr álvaro Bruno Botentuit (teste do olhinho)

Tirando dúvidas sobre o teste do olhinho. entrevista que foi ao ra no Repórter Difusora no dia 02 de setembro de 2019.