Fragmentos de uma alma inquieta.
Desde muito cedo acostumei-me com
a idéia da solidão. Não sei se por carma, por medo. Sempre preparei-me para
desfechos triste. Nunca acreditei muito em finais felizes. Aos treze anos
comecei escrever uma série de poemas intitulados paradoxos. O primeiro escrevi
em uma bela tarde de sol na praça Gonçalves Dias. Na essência eu buscava de
forma profética vislumbrar o futuro, eu havia completado dezesseis anos; “na
velhice ambicionarei um carinho espontâneo e ganharei um abraço forçado”.
Vieram muitos depois dele. Sempre escrevi aproximando opostos: sol e chuva,
riso e lágrima, amor e ódio, chegada e partida. Na verdade tinha uma vida
normal de um adolescente pobre, filho de uma dona de casa católica fervorosa e
de um pai também de forte religiosidade e bastante conservador – Esta história
de “barulho” na igreja não é coisa de Deus” – Dizia, quando os primeiros grupos
começaram ensaiar com baterias e guitarras durante as celebrações.
Lembra-me com tristeza dos fins
de semana e ficava torcendo pra passar logo, Sábado era dia de estudo redobrado
e ai de mim se ao menos colocasse a cabeça fora da janela. Com o canto do olho
espiava meus amigos de mesma idade já subindo pra estrada de ferro e seguindo
para tertúlias dançantes comuns nos anos sessenta.
Jogar bola na rua, mesmo não
sendo um bom jogador, só quando papai estava no trabalho. Certa vez algo
aconteceu no serviço e meu pai voltou cedo e me encontrou no meio de uma
animada pelada da rua. Nem precisou me falar nada, fuzilou-me com o olhar para
ao chegar em casa me passar um sermão que pareceu uma eternidade. Me disse
palavras duras, lembro-me de ter chorado muito, sendo depois consolado pela
minha mãe que sempre traduzia de forma suave o discurso do meu velho,
explicando que tudo que ele queria era o meu bem e que estudasse, coisa que ele
não tivera oportunidade de fazer.
Lá se vão mais de quarenta e
cinco anos daqueles diálogos e como sou grato a eles, pelo sentido e direção
que me foi passado.
Lembro-me agora, ainda com o
coração disparado, da lição de brandura e sapiência da minha mãe. Estávamos no
puxado transformado em cozinha da nossa casa de barro e palha. Meu pai chegara
da pescaria. Havia trabalhado vinte e quatro horas na antiga fábrica do anil,
hoje Cintra, que na época abrigava maquinárias do D.E.R. Meu pai estava muito
agitado e chegou brigando com a gente, reclamando de algo que nem lembro agora.
Não gostei de ouvir os gritos dele e falei apenas para ela ouvir – Quando tiver
meus filhos, não vou gritar deste jeito com eles, no que minha mãe retrucou e
docemente me respondeu – Robson, teu pai não estudou, começou trabalhar muito
cedo. Trabalha duro para que vocês tenham uma educação melhor que a dele,
Entenda seu pai. Foi o último sermão que ouvi daquela mulher com a barriga
enorme de uma gravidez extemporânea. Nosso irmão mais novo, Dori-Edson, já estava com doze anos. Era o mês de janeiro
de 1980.
O dia dezessete daquele mês marcaria
a chegada do novo caçula, Natanael, e a partida de nossa mãe.
No dia 16, após o almoço, tivemos
uma conversa longa sobre o futuro; matriculas dos irmãos, vestibular, cuidados
com a saúde e muitos outros temas que foram sendo colocados na pauta e
esmiuçados um após o outro. Depois da conversa, tomei banho, tomei um ônibus
para o São Francisco, saltei e fui para uma campina onde depois seria
construído o Basa. Lá fiquei olhando para o mar durante umas três horas, numa
espécie de transe, só saindo dalí quando as primeiras estrelas começavam a
enfeitar o céu. Cheguei em casas e encontrei minha mãe inquieta. No canto da
sala uma sacola com roupas para o bebê – Estou com dores, mas tá tudo bem,
quando seu pai chegar da pescaria, iremos para a clínica. Era o primeiro filho
que minha mãe teria fora de casa. Todos os outros vieram ao mundo através de
uma parteira leiga.
Meu pai chegou, tomou banho e
seguiram na direção da antiga rodoviária pra tomar o ônibus que os levariam
para a Clínica São Camilo, bem próximo de onde é hoje o Rio Anil Shopping.
Chegando na clínica meu pai foi
orientado a voltar pra casa e só voltar no dia seguinte para buscar mamãe e o
bebê.
Assim aconteceu. Meu pai voltou e
quando já passava das cinco horas da manhã, fomos acordados por uma voz que
perguntava se era a casa de seu Alberto e que precisava ir ao Hospital porque
algo havia saído errado.
Chegamos ao hospital e precisamos
doar sangue, uma hemorragia violenta se abatera após o parto,
A criança foi
tirada a fórceps, pois ela já não tinha forças.
De nada adiantou a doação. Ao
chegarmos à clínica recebemos a notícia de que tinham feito o possível para
salvá-la, mas não haviam conseguido. Passava das seis e trinta da manhã.