sábado, 20 de abril de 2019

ÚLTIMO SERMÃO (MÃE É MÃE)


Fragmentos de uma alma inquieta.

Desde muito cedo acostumei-me com a idéia da solidão. Não sei se por carma, por medo. Sempre preparei-me para desfechos triste. Nunca acreditei muito em finais felizes. Aos treze anos comecei escrever uma série de poemas intitulados paradoxos. O primeiro escrevi em uma bela tarde de sol na praça Gonçalves Dias. Na essência eu buscava de forma profética vislumbrar o futuro, eu havia completado dezesseis anos; “na velhice ambicionarei um carinho espontâneo e ganharei um abraço forçado”. Vieram muitos depois dele. Sempre escrevi aproximando opostos: sol e chuva, riso e lágrima, amor e ódio, chegada e partida. Na verdade tinha uma vida normal de um adolescente pobre, filho de uma dona de casa católica fervorosa e de um pai também de forte religiosidade e bastante conservador – Esta história de “barulho” na igreja não é coisa de Deus” – Dizia, quando os primeiros grupos começaram ensaiar com baterias e guitarras durante as celebrações.

Lembra-me com tristeza dos fins de semana e ficava torcendo pra passar logo, Sábado era dia de estudo redobrado e ai de mim se ao menos colocasse a cabeça fora da janela. Com o canto do olho espiava meus amigos de mesma idade já subindo pra estrada de ferro e seguindo para tertúlias dançantes comuns nos anos sessenta.

Jogar bola na rua, mesmo não sendo um bom jogador, só quando papai estava no trabalho. Certa vez algo aconteceu no serviço e meu pai voltou cedo e me encontrou no meio de uma animada pelada da rua. Nem precisou me falar nada, fuzilou-me com o olhar para ao chegar em casa me passar um sermão que pareceu uma eternidade. Me disse palavras duras, lembro-me de ter chorado muito, sendo depois consolado pela minha mãe que sempre traduzia de forma suave o discurso do meu velho, explicando que tudo que ele queria era o meu bem e que estudasse, coisa que ele não tivera oportunidade de fazer.
Lá se vão mais de quarenta e cinco anos daqueles diálogos e como sou grato a eles, pelo sentido e direção que me foi passado.
Lembro-me agora, ainda com o coração disparado, da lição de brandura e sapiência da minha mãe. Estávamos no puxado transformado em cozinha da nossa casa de barro e palha. Meu pai chegara da pescaria. Havia trabalhado vinte e quatro horas na antiga fábrica do anil, hoje Cintra, que na época abrigava maquinárias do D.E.R. Meu pai estava muito agitado e chegou brigando com a gente, reclamando de algo que nem lembro agora. Não gostei de ouvir os gritos dele e falei apenas para ela ouvir – Quando tiver meus filhos, não vou gritar deste jeito com eles, no que minha mãe retrucou e docemente me respondeu – Robson, teu pai não estudou, começou trabalhar muito cedo. Trabalha duro para que vocês tenham uma educação melhor que a dele, Entenda seu pai. Foi o último sermão que ouvi daquela mulher com a barriga enorme de uma gravidez extemporânea. Nosso irmão mais novo, Dori-Edson,  já estava com doze anos. Era o mês de janeiro de 1980.
O dia dezessete daquele mês marcaria a chegada do novo caçula, Natanael, e a partida de nossa mãe.

No dia 16, após o almoço, tivemos uma conversa longa sobre o futuro; matriculas dos irmãos, vestibular, cuidados com a saúde e muitos outros temas que foram sendo colocados na pauta e esmiuçados um após o outro. Depois da conversa, tomei banho, tomei um ônibus para o São Francisco, saltei e fui para uma campina onde depois seria construído o Basa. Lá fiquei olhando para o mar durante umas três horas, numa espécie de transe, só saindo dalí quando as primeiras estrelas começavam a enfeitar o céu. Cheguei em casas e encontrei minha mãe inquieta. No canto da sala uma sacola com roupas para o bebê – Estou com dores, mas tá tudo bem, quando seu pai chegar da pescaria, iremos para a clínica. Era o primeiro filho que minha mãe teria fora de casa. Todos os outros vieram ao mundo através de uma parteira leiga.

Meu pai chegou, tomou banho e seguiram na direção da antiga rodoviária pra tomar o ônibus que os levariam para a Clínica São Camilo, bem próximo de onde é hoje o Rio Anil Shopping.
Chegando na clínica meu pai foi orientado a voltar pra casa e só voltar no dia seguinte para buscar mamãe e o bebê.

Assim aconteceu. Meu pai voltou e quando já passava das cinco horas da manhã, fomos acordados por uma voz que perguntava se era a casa de seu Alberto e que precisava ir ao Hospital porque algo havia saído errado.

Chegamos ao hospital e precisamos doar sangue, uma hemorragia violenta se abatera após o parto, 
A criança foi tirada a fórceps, pois ela já não tinha forças.

De nada adiantou a doação. Ao chegarmos à clínica recebemos a notícia de que tinham feito o possível para salvá-la, mas não haviam conseguido. Passava das seis e trinta da manhã.


Dr álvaro Bruno Botentuit (teste do olhinho)

Tirando dúvidas sobre o teste do olhinho. entrevista que foi ao ra no Repórter Difusora no dia 02 de setembro de 2019.