(a foto registra o primeiro ônibus parado na UFMa)
Parecia um dia como outro qualquer (17 de setembro de 1979). Cursava Farmácia. Estávamos na sala de aula no prédio que abrigava laboratórios de química na UFMa. No meio da aula um pequeno grupo de estudantes pediu licença para uma conversa rápida, que explicava sobre a meia passagem que já existia no papel, mas que não acontecia de fato. A conversa não demorou muito, em poucos minutos a aula era encerrada e todos os alunos se juntavam ao pequeno grupo que liderava o movimento.
De sala em sala a conversa era rápida e em pouco tempo, todos rumavam em direção a um local onde normalmente esperávamos pelos ônibus. Quando um deles chegou, um dos líderes fez parada, entrou no ônibus e pediu a chave do carro. O motorista não protestou, desligou o caro e entregou. Começava assim o movimento popular mais importante de nossa cidade.
Na época eu lecionava nos colégios Cardoso Amorim e La Rocque. No Cardoso Amorim, uma professora que não me recordo o nome, parou a aula e começou a conclamar os alunos para se juntarem ao movimento, o que foi questionado pelo Diretor da Escola que era Deputado, ameaçando-a de demissão. Na quele mesmo momento vários voluntários começavam levar alimentos, água, refrigerantes para os jovens que se reuniam no acesso ao interior do Campus, o sol era intenso, mas ninguém arredava pé. Paralelamente, outros grupos iam de escola em escola convocando os estudantes para a manifestação no fim de tarde na praça Deodoro, no antigo coreto.
No fim do dia , por volta de 17:30 eu chegava na praça que já estava tomada de jovens de todas escolas de São Luis. Fiquei um tempo por ali e segui para o La Rocque onde ministrava aulas à noite. Estava no segundo horário quando um homem com um grande corte na testa, entrou na sala, a camisa toda ensanguentada, era marido de uma das alunas. Lá fora a multidão já avançava em direção ao Palácio do governo. Ao longo do percurso, baderneiros que se misturaram aos milhares de alunos, iam destruindo que encontravam pela frente. Na rua grande todas as lojas foram depredadas.
Quando tentei voltar para casa me deparei com cena rara; ao longo percurso do centro até o monte castelo onde morava, todos ônibus estavam apedrejados.Fui pra casa andando.
A história é longa e está registrada em áudio, fotos e vídeo. Naquela noite mal consegui dormir. O dia seguinte amanheceu com polícia nas ruas e mais carros apedrejados. Lembro-me de ter tomado um ônibus em direção ao centro, ao chegar próximo à caixa d'água, um homem atirou uma pedra enorme estilhaçando o vidro da frente, todos os passageiros desceram.
Aquele movimento fez valer uma Lei que havia sido aprovado há décadas, a Lei da meia passagem. Hoje quem passa pela catraca pagando meia, não tem noção do luta travada pra fazer valer um direito. Muitos estudantes foram presos, muitas vozes se levantaram para defendê-los. Agora é história, história de luta. Até a próxima.

